Intolerância social ameaça democracia

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Ontem, uma ouvinte, certamente imbuída de responsabilidade social e da preocupação de uma cidadã, disse que minhas palavras poderiam incentivar a violência, dada a amplitude do programa. Ao que respondi que estava eu apenas fazendo alerta, especialmente às autoridades constituídas diante de tantos desvios administrativos e políticos em evidência. Decidi, então, hoje, dar continuidade ao alerta, por ser minha obrigação ética, constitucional e profissional.

O desrespeito aos direitos individuais e aos direitos sociais; o avanço da criminalidade; o desrespeito à dignidade humana; a tomada do poder, sem revolução e sem arma, pelos corruptos; a falta de autoridade e a consequente inexistência do poder da autoridade, poderão nos levar à intolerância social.

Não estamos nos referindo à desobediência civil, movimento liderado por Gandhi, que desencadeou na libertação da Índia do império britânico. Não, em absoluto! Não temos líderes com tamanha capacidade de convencimento público.

Muito pelo contrário. Nossas lideranças faliram nas suas ações porque, em sua grande maioria, são despropositadas e sem propósito algum.

Falamos da intolerância social, aquela intolerância cujos sinais com a apreensão e linchamento de assaltantes por populares são vistos por todos. Falamos da intolerância social, aquela que fecha ruas e avenidas porque faltam água e luz. Falamos da intolerância social, aquela que vai fechar escolas porque os ladrões dela se apoderam de vez em quando. Falamos da intolerância social, aquela que um dia vai depredar hospitais porque os doentes não são atendidos e morrem nos corredores. Falamos da intolerância social, aquela que começa a invadir delegacias para fazer justiça com as próprias mãos porque já não aguenta mais a soltura indiscriminada de bandidos com mais de dez ou 20 com entradas na polícia.

Falamos da intolerância social, aquela intolerância que um dia vai quebrar e incendiar ônibus porque, por um motivo justo ou não, deixam de circular por duas horas ou mesmo semanas, impedindo que a criança vá a escola, que o idoso chegue à clínica, que o pai de família se dirija ao trabalho, que a dona de casa vá ao mercado.

Falamos da intolerância social que não existe no Brasil, na prática, porque as pessoas ainda estão anestesiadas pela falta de comida, pela doença, pela preguiça mental e intelectual e vitimadas fatalmente pela corrupção dos nossos costumes que desestabilizam as instituições e maltratam o povo.

Não falamos da desobediência civil porque esta irrompe na sociedade a partir do sentimento de civilidade, de civismo, de pátria, de amor ao próximo, da fraternidade; do sentimento de união e de respeito à cidadania.

Esses valores, perdoem-me, são raros no Brasil envolto no jeitinho de furar a fila, a fila da vergonha, o jeitinho de ludibriar o vizinho pelos motivos mais simples e pelas razões mais torpes.

Atenção, muita atenção, a intolerância social que ameaça tomar conta do Brasil pode destruir muita coisa, mas, sem dúvida, vai tirar do caminho, dos gabinetes, dos palácios, a vergonha da falta de autoridade, a vergonha da corrupção, a vergonha da inépcia, a vergonha da podridão, pondo em seu lugar, a justiça, a liberdade, a honestidade e a honra.

Esta é a ideia, cidadãos e cidadãs piauienses.

Domingos Bezerra Filho

Jornal da Teresina 2ª Edição de 12.01.18.

 

 

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