Enfim, o fim

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E eis que o carnaval está chegando ao seu final.

Chegou, enfim, o tão temido The End.

A terça-feira que está começando traz consigo  essa certeza de que a folia está acabando.

A nossa bendita, a nossa salvadora folia está acabando.

Está acabando a nossa anestesia, exatamente aquela anestesia que em algum momento nos pareceu eterna, mas que agora, infelizmente, se revela fugaz, veloz.

Mais uma vez estamos sendo chamados à realidade.

Mais uma vez estamos sendo levados a despertar desse torpor, dessa nossa apatia que nos levou para bem longe da realidade cruel em que vivemos.

Daqui a pouco alguém vai nos chamar à razão, vai nos lembrar que o carnaval acabou, vai nos lembrar que a quarta-feira de cinzas chegou.

E com ela a certeza de que chegou também a hora de guardar a fantasia.

É chegada a hora de guardar a máscara.

Tem razão o poeta:

Vida, carnaval:
Euforia no começo,
Cinzas ao final…

Mas valeu a pena.

Sempre vale a pena.

Vale a pena mesmo sabendo que ao raiar do novo dia uma multidão de arrependidos continua a vagar a procura do abrigo da própria casa, do próprio leito. À procura do aconchego nos braços da mulher muitas vezes ignorada nesse reino da irresponsabilidade humanal.

Mas a vida é assim mesmo, cheia de arrependimentos.

E se a vida é assim mesmo só nos resta seguir.

Só nos resta seguir em frente, na certeza de que no ano que vem toda essa alegria contagiante estará de volta.

Na certeza de que teremos pelo menos mais três dias de carnaval para extravasar as nossas mágoas.

O folião que há em cada um de nós apenas adormece neste momento de despedida. Adormece sabendo que não vai dormir para sempre, adormece contando as horas do tempo para que não demore muito o sábado do Zé Pereira esteja mais uma vez batendo à nossa porta.

Como diz Chico Buarque de Holanda, quem me vê sempre calado, distante, garante que eu não sei sambar, mas tô só me guardando pra quando o carnaval chegar. De novo.

E enquanto o próximo carnaval não chega, vamos lutar para conseguir sobreviver neste país de segurança pública falida, de escolas públicas fechadas e de corredores lotados de pessoas doentes à espera da morte que espreita.

Felizes os brasileiros que em meio a tudo isso ainda encontram força para procurar no carnaval uma espécie de refúgio.

Um refúgio de míseros três dias, mas uma migalha que nos anima, que nos alimenta.

É uma pequena pausa que revigora a todos, apesar do cansaço visível a olho nu provocado pelas noites insones.

Cansaço visível a olho nu, mas que, mesmo assim, pode muito bem ser interpretado como a felicidade de quem brincou mais um carnaval.

Chico Leal – Opinião Jornal da Teresina I Edição (13.02.18)

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