Edmar Oliveira

Edmar Oliveira

Estamos todos bêbados

Edmar Oliveira *

“Porque no final, a realidade é essa: nós ‘não vai’ ser preso; nós sabemos que nós ‘não vai’. Vamos fazer tudo, menos ser preso”.

Joesley Batista

A República está embriagada. O presidente usurpador vai à China fazer um negócio às avessas. Coloca o país à venda para comprar a continuidade do mandato e fazer aprovar reformas no interesse dos donos desta nação que ficaram com medo de perder o tesouro – que foi ameaçado quando os pobres ganharam algumas migalhas a mais do que estavam acostumados. O Maia chorão promete ajudar o Rio se o Pezão fechar a UERJ, demitir os servidores e vender a CEDAE. Os jovens, como gado ao matadouro, não se dão conta de que a eliminação dos direitos trabalhistas os torna escravos e a reforma da previdência torna o seu futuro imprevidente. Parece não haver mais a revolta que faz a juventude reluzir. Uma mala de dinheiro sai bêbada de uma pizzaria para pegar um taxi e o ladrão que a devolve é solto. Uma fita faz a confissão de corrupção presidencial, mas o congresso não autoriza processar o ladrão. Num apartamento em Salvador é encontrada uma pilha de dinheiro, que parece ter sido colhido em árvore. Se o dinheiro fosse tirado em caixas eletrônicos, seriam necessários 34 anos de labor ininterrupto para o ladrão ter acumulado a quantia no apartamento. Um ex-petista que ameaçou denunciar o esquema bancário (que nunca é ligado ao dinheiro encontrado) denunciou seu ex-chefe para que a delação seja aceita pelo juiz justiceiro. A premiação dada aos irmãos açougueiros pela delação foi anulada porque eles esconderam o que o Ministério Público não queria ouvir. O Supremo aceitou a delação porque havia ameaça de se falar os podres de suas excelências, o que não se concretizou ao final da audição.

E foi quebrado o sigilo de uma conversa dos delatores contendo bravatas, estripulias sexuais em gabolice e confissões estapafúrdias (com erros de português dignos de dupla sertaneja goiana), de quem se achavam acima da lei. O que diabos foi fazer uma prova contra os próprios donos da fita dentro da fita? Eles não souberam explicar porque entregaram uma enorme gravação em que produzem provas abundantes de seus crimes e convicções bandidas. Alegaram que era conversa de bêbados entregue por bêbados que se embriagaram da corrupção desenfreada que assolou o país.

Uma foto indiscreta, num pé sujo e entre caixas de cervejas, denuncia um encontro entre o Procurador Geral da República e o advogado dos bandidos. Seria outra conversa de bêbados?

Devemos mesmo estar todos bêbados para não compreendermos como fomos capazes de chegar até essa situação de aparência absurda e irreal. Eu mesmo não tenho a menor condição de explicar os fatos que aqui apenas enunciei. Estou muito bêbado para compreender.

Eu vou tomar outra. Me acompanha?

Edmar Oliveira é psiquiatra, blogueiro, aprendiz de escritor, leitor contumaz, comunista utópico, socialista desejante

O sorriso de Monalysa

Edmar Oliveira *

Nunca gostei de concurso de misses. Na ditadura éramos contra ao que chamávamos mais uma forma de alienação política. Lembro antes, ainda menino, das duas polegadas a mais da Marta Rocha, que lhe tirou o título de miss Universo – o que insinuava que aquelas belezas estavam a sós no universo (mesmo que houvesse outras vidas, seriam mais feias) e o menino frustrado porque achava Marta a mais bonita. E entre tantas mulheres bonitas, juro que nunca senti o excesso das duas polegadas da baiana boazuda para os padrões da época.

Depois o tal concurso caiu no esquecimento, coisas de comentários de umas tias velhas, e não atraíram mais o público com o sucesso anterior. Ficou mesmo apagado no tempo. Démodé!

Eis que ele ressurge na força de uma beleza conterrânea diferente demais para os padrões das minhas lembranças: Monalysa Alcântara é uma negra esquia, numa beleza de Gisele Bündchen das passarelas, sem quaisquer problemas do excesso de polegadas da Marta Rocha, muito alta para os padrões piauienses da minha geração, cabeleira esvoaçante e bela, cultuando a negritude sem disfarces e preconceitos, não leu o Pequeno Príncipe – como as misses do meu tempo – e foi arretada, colocando-se contra o racismo e o machismo que ficaram insuportáveis nesse mundo que dobrou a esquina à direita faz um bom tempo. E ainda provocou a reação dos fascistas que saíram do armário sem nenhuma vergonha. O sorriso de Monalysa debocha dos cães que ladram invejosos. Uma miss que não parece em nada com miss. Pode?

A beleza de Monalysa eu já conhecia nas fotografias. Tenho um conterrâneo nas redes sociais que tem o prazer de divulgar as belezas do Piauí – do Delta do Parnaíba a Serra da Capivara – principalmente se essas belezas emoldurarem mulheres bonitas. E como o cara tem me apresentado – nem que sejam pela tela do computador – mulheres maravilhosas em fotos fantásticas, já a conhecia entre outras beldades tão misses quanto. Monalysa foi uma dessas, portanto não foi surpresa vê-la ganhar o concurso: já tinha ganhado o meu voto.

Que temos mulheres bonitas, eu já sabia há muito tempo, casei com uma. O problema são os cabas, que são feios “como deus me livre”. Sorte nossa, que elas se acostumaram com os feios e nos deram filhos e netos lindos, que a gente olha e não se crê merecedor. Agora é que elas estão saindo de casa e se amostrando pro mundo. Ou os homens de lá se embelezam ou vão dançar.

Monalysa encheu de orgulho e boniteza o Piauí. Mas mesmo assim, disse tudo isso só pra concordar com um desabafo do meu compadre Cinéas Santos: “Monalysa é linda, é Miss Brasil: estamos muito felizes. Mas fica aqui uma sugestão: que tal iniciarmos uma campanha instigando as meninas piauienses (ricas,pobres,bonitas,feias) a estudarem um pouco mais? É a beleza que permanece”.

E antes que briguem comigo, como brigaram com meu compadre, estamos louvando a beleza de Monalysa e pegando carona no seu desembaraço contra o racismo e o machismo para que a beleza que permanece seja valorizada até mais que o concurso de miss. De acordo!

Esperemos que Monalysa tenha usado o concurso, como o Jean Willys usou o BBB para aparecer com o conteúdo que ele tem. Queremos o de Monalysa também, nesse mundo torto que tem as linhas retas já complicadas para o meu entendimento.

Esperamos que o sorriso de Monalysa diga mais aos conterrâneos, como prometeu em suas primeiras entrevistas.

* Edmar Oliveira é psiquiatra, blogueiro, aprendiz de escritor, leitor contumaz, comunista utópico, socialista desejante

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